Diz-me que desafios tens, dir-te-ei quem és: o futuro do investimento social

Laboratório de Investimento Social
“O ponto de partida para o desenvolvimento de mecanismos financeiros para a inovação social deve ser as necessidades reais das organizações e os obstáculos de financiamento na resolução de determinados problemas sociais.”

Diz-me que desafios tens, dir-te-ei quem és: o futuro do investimento social

Em certa medida, o investimento social está para o investimento tradicional como a impressão 3D está para a indústria de impressão: muita gente fala nisso, pouca gente o faz e quem o faz ainda não faz tão bem quanto poderia. São inúmeros os desafios que se colocam até chegarmos a um ponto de inflexão em que investir em mudança social se torna um paradigma e prática comum.

Neste artigo, o último de uma série de três que exploraram ao longo dos últimos meses, diferentes perspetivas sobre o Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social, identificamos os principais desafios que existem ao desenvolvimento do setor de investimento social em Portugal. Para este efeito, recolhemos as perspetivas de três peritos nesta temática e membros do GT Investimento Social: Domingos Soares Farinho, do Instituto de Ciências Jurídico-Políticas; Luís Jerónimo, da Fundação Calouste Gulbenkian; Miguel Athayde Marques, do Portugal Economy Probe.

Desafio 1. “Os protagonistas do setor de investimento social deverão ser as respostas sociais inovadoras e não os instrumentos financeiros” (Luís Jerónimo)

Os mecanismos financeiros são um meio para atingir um fim, não o fim em si mesmo. O ponto de partida para o desenvolvimento de mecanismos financeiros para a inovação social deve ser as necessidades reais das organizações e os obstáculos de financiamento na resolução de determinados problemas sociais. Nesse sentido, devem adaptar-se às organizações sociais e não o oposto.

As organizações sociais enfrentam grandes desafios no acesso a mecanismos de financiamento adequados às suas necessidades. Desta forma, o foco na capacitação das organizações revela-se extremamente importante, dependente de um capital focado no longo prazo, capaz de financiar a estrutura das organizações e não somente a sua atividade presente. Neste facto assenta a grande diferença entre investimento social PARA as organizações (focado em projectos) e NAS organizações (focado na estrutura das organizações). O desafio reside em desbloquear mais investimento social para investir nas organizações.

Além dos constrangimentos endógenos, como dificuldades de gestão, na recolha e tratamento de informação, existem ainda desafios exógenos, tais como a dificuldade em atrair talento – um talento diversificado e qualificado. Mais do que financiamento, o investimento social foca-se em resultados e no impacto real gerado, intimamente dependente de uma gestão profissionalizada e completa.

Luís Jerónimo acredita que esta nova geração tem vindo a demonstrar um novo olhar relativamente às suas ambições profissionais, não se restringindo à remuneração financeira, mas dando forte relevância ao valor social que pode gerar com o seu trabalho. Como resultado, as organizações sociais têm diante si uma grande oportunidade de capitalizar este segmento, explorando novos incentivos a que as restantes empresas não terão acesso.

Desafio 2. “A liderança pelo exemplo cria embaixadores que mobilizam outros para o financiamento da inovação social”  (Luís Jerónimo)                  

É crucial assegurar um grupo de investidores que dê o exemplo e que viabilize um número de transações significativo para a criação do mercado. A Fundação Calouste Gulbenkian deu um passo neste sentido ao financiar o primeiro Título de Impacto Social (TIS) em Portugal. No entanto, tal não é suficiente para criar a evidência e a experiência que o mercado necessita – outros poderão juntar-se a esta abordagem de financiar a inovação social.

Num contexto em que Portugal lidera pelo exemplo a nível da União Europeia, através duma entidade catalisadora como a Iniciativa Portugal Inovação Social, será necessário dinamizar todo o ecossistema. A atracção duma multiplicidade de actores é um factor sine qua non para a sustentabilidade do setor de investimento social no nosso país. Teremos de olhar para a Iniciativa Portugal Inovação Social como uma excelente alavanca, não como o dinamizador exclusivo.

Precisamos ainda de ser claros sobre a ambição do investimento social, enquanto conceito emergente. A possibilidade de um reembolso e potencial retorno financeiro é obviamente uma premissa interessante e atrativa para os investidores sociais, uma vez que possibilita a multiplicação da capacidade de investir em projetos de natureza social. Contudo, o investimento social serve um propósito específico, focado num nicho do setor social, e que não resolverá todos os problemas financeiros do setor. Existirão sempre organizações sociais que operam sem modelos de negócio, dada a sua natureza de ação humanitária, para quem os donativos e financiamentos unilaterais serão sempre necessários. E isto não é de nenhuma forma uma perspectiva negativa; pelo contrário, corrobora a necessidade de diversidade dos mecanismos de financiamento da inovação social, desde a filantropia, passando por mecanismos de investimento social até chegar a outros instrumentos financeiros tradicionais.

Desafio 3. “Uma cultura de orientação para os resultados só pode passar pela formação, como orientação política estratégica top-down”. (Domingos Soares Farinho)

No domínio do setor público, um dos principais desafios que o mercado enfrentará prende-se com a formação dos vários agentes do mercado. Nos próximos anos é necessário um investimento no desenvolvimento de competências para o investimento social, com especial enfoque no setor público, disseminando aspetos importantes, como a contratualização por resultados no âmbito dos serviços sociais públicos.

Domingos Soares Farinho defende que a alteração da cultura predominante focada no curto-termismo e de ênfase nas atividades, em contraponto com os resultados, será alterada quando forem disponibilizados os conteúdos, ferramentas e recursos para que os agentes do setor público possam tomar decisões informadas e enquadradas num cenário legal que crie esses incentivos.

O setor público é o principal comprador de resultados sociais e verá, nos próximos anos, a necessidade de alterar a forma como financia o cumprimento desses resultados. Antecipar uma tendência crescente será um movimento com sentido para os representantes do setor público em Portugal.

Desafio 4. “A existência de iniciativas que promovam a eficiência, transparência e avaliação de resultados terá reflexo numa melhor angariação de recursos financeiros para o setor”. (Miguel Athayde Marques)

Este setor emergente e os atores que nele se movimentam rapidamente irão exigir um grau de transparência e simetria de informação que terá um efeito directo na credibilidade e robustez do mercado. Na prática, a existência de inteligência de mercado, não só facilita a pesquisa de informação existente, e que se encontra atualmente dispersa por inúmeras fontes, mas também incentiva a produção de informação em falta, colmatando as lacunas visíveis neste mercado em desenvolvimento.

Para Miguel Athayde Marques, este processo assemelhar-se-á muito ao do Portugal Economy Probe (www.peprobe.com), uma plataforma que agrega e difunde informação sobre a economia portuguesa e os seus agentes e que viu o mercado reagir tanto na forma de aceder à informação como na produção da mesma.

Um Futuro Promissor

Os próximos anos irão servir de palco para a história que o investimento social poderá contar. O diagnóstico foi feito e validado por 21 decisores dos setores público, privado e social no âmbito do Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social. O sucesso depende agora do rigor e capacidade analítica na implementação das recomendações propostas. Está nas mãos dos diversos atores atuarem de forma concertada para que em 5 anos o investimento social se transforme numa forma de investimento tradicional.

No final, todos ganham, mas principalmente aqueles que representam os segmentos mais vulneráveis da sociedade pois as organizações que os apoiam estão mais capacitadas e adequadamente financiadas.

 

Rita Casimiro e António Miguel

Laboratório de Investimento Social

Novembro 2015

Agradecimento especial pelo contributo para o artigo a Domingos Soares Farinho, Luís Jerónimo e Miguel Athayde Marques.

Este artigo foi publicado pela Impulso Positivo na edição nº 30 Novembro/Dezembro 2015. A versão original pode ser encontrada aqui.

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