Entrevista a Emma Tomkinson

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No dia 21 de Abril, o Laboratório de Investimento Social esteve com Emma Tomkinson – Australiana, analista de Investimento Social que fez parte da equipa do Cabinet Office UK e que criou a SIB Knowledge Box. Durante a nossa entrevista, aprendemos mais sobre o seu trabalho, projetos atuais e experiência no setor.

Laboratório de Investimento Social (LIS): Emma, podemos ler na tua página de LinkedIn e no teu blog que te intitulas uma analista de impacto social. Podes explicar-nos em que consiste a tua posição?

Emma Tomkinson (ET): Talvez seja bom começar por explicar que uma das razões para me apresentar como analista de impacto social se prende com o facto de ser um membro da Social Impact Analyst Association, no Reino Unido. Como a análise do setor de Investimento Social é uma prática nova e emergente, eu uso este título como forma de introduzir o tema às pessoas com quem falo. Isto fá-las levantarem muitas perguntas e leva-me a mim a ter de responder, explicar e falar sobre o tema. É, de alguma forma, uma questão de educação e desenvolvimento profissional, de partilhar e disseminar conhecimento – que penso ser também um dos focos do vosso trabalho no Laboratório).

LIS: Um dos teus projetos atuais é o emmatompkinson.com – a stream of social consciousness – um blog pessoal que criaste há pouco tempo. Em que consiste o blog e porque o criaste?

ET: Eu comecei o blog com o objetivo de criar um diário de websites interessantes que ia encontrando e registar coisas que me fosse útil recordar. Com o passar do tempo, fui tendo conversas com diferentes pessoas do setor e fui-me apercebendo de que existiam perguntas muito frequentes, perguntas que as pessoas colocam e para os quais parecia não existir nenhum trabalho ou resposta adequada. Quando me apercebi disto, comecei a usar o blog para dar respostas e satisfazer de alguma forma a procura de informação das pessoas.

LIS: Ao longo dos teus posts no blog, é muito evidente que te preocupas em clarificar algumas ideias e traduzir “chavões” muito utilizados no setor e que podem não estar ao alcance do público em geral. Porque tens este cuidado?

ET: Sim, o blog é também uma forma de clarificar ideias que possam ser mal comunicadas. Um desafio do setor de investimento social é o facto de muitas das conversas serem catalisadas apenas por investidores – são eles que têm os melhores recursos para escrever sobre o tema ou para lançar eventos -, o que significa que a linguagem utilizada é baseada em termos financeiros. Por exemplo, quando falamos de oferta e procura num contexto financeiro, estamos a referir-nos a oferta e procura de dinheiro; se falarmos de oferta e procura ao setor público, pensa-se em necessidades da comunidade… É preciso simplificar o que pretendemos transmitir, para que a mensagem seja a mesma para ambos os lados.

LIS: A construção de uma linguagem comum do setor é também um dos pontos de trabalho do Laboratório. Em que situações se pode notar esta fragilidade?

ET: Uma das coisas mais interessantes no setor do Investimento Social é o facto de proporcionar o encontro entre organizações e empreendedores sociais, investidores e setor público. No entanto, este encontro torna fundamental prestar muita atenção à maneira como se comunica, devendo todos procurar fazê-lo de forma clara.
Por exemplo, uma das coisas mais difíceis numa reunião é interromper um discurso para perguntar o que as coisas significam. Se falamos em BSC (Big Society Capital) é importante perceber se todos os presentes sabem o que o acrónimo significa. Uma das sensações mais recorrentes no setor – porque é um setor emergente-, é acharmos que todos sabem mais do que nós. É simplesmente mais fácil estar numa reunião e acenar com a cabeça. Eu entendo este gesto como uma falta de entendimento de todas as partes. Quando o selar de um acordo ou contrato se aproxima, é necessário que todas as perspetivas se entendam e sejam refletidas nos termos finais. Deixa-me muito satisfeita saber que começaram a vossa serie de notas de investigação pelo Glossário para a Economia Convergente.

LIS: Tens alguma sugestão para o trabalho do Laboratório de harmonização da linguagem do setor?

ET: É importante não partir do princípio de que as pessoas sabem do que estamos a falar, e é igualmente importante rever e atualizar constantemente os conceitos que definimos. Este trabalho é um processo de evolução e revisão constante, em que frequentemente nos apercebemos que as coisas podem ser ainda mais claras do que julgamos ao início. É um passo importante na construção da confiança dos atores do setor.

LIS: Para além do blog, tens uma participação muito independente em outros projetos – porque tomaste esta decisão de participar em várias iniciativas em simultâneo?

ET: Isto acontece porque eu quero trabalhar com várias organizações ao mesmo tempo, e não focar-me numa. Neste momento na Austrália, não existem posições que me permitam trabalhar com tantas organizações como eu gostaria, ou com organizações dedicadas a tantos setores como eu gostaria. Então, no momento, trabalho em vários projetos diferentes.

LIS: Que projetos são esses?

ET: Estou a preparar um paper científico sobre o impacto dos contratos baseados em resultados – isto é, qualquer contrato que pressuponha um pagamento mediante os resultados alcançados. Utilizamos um grupo de controlo – grupo de organizações que não segue este modelo de contrato, e comparamos o impacto gerado por estas organizações e por outras que seguem o modelo – grupo de tratamento.
Notamos que, por todo o mundo, existe uma tendência crescente para se adotar este tipo de contratos, no âmbito de serviços sociais, serviços de bem-estar, no fundo, serviços prestados às pessoas que têm mais necessidades. No entanto, não existe uma base de evidência forte que justifique esta tendência. Esta investigação pretende rever o uso de todos estes contratos deste tipo no mundo aplicados a serviços sociais públicos.

LIS: Em que outros projetos estás envolvida?

ET: Trabalho com o governo e stakeholders de diferentes países de maneira a ajudá-los a avaliar a aplicabilidade de um Título de Impacto Social como meio de alcançar os objetivos que traçam. Acontece muitas vezes o uso de um Título de Impacto Social ser o objetivo final dos governos. Isso não é algo em que eu acredite; acredito que é um instrumento, que pode levar ao alcance de diferentes objetivos públicos e que é aplicável em diferentes contextos. Neste âmbito, faço workshops interativos – oiço o que as pessoas têm a dizer, o que as preocupa e quais os seus maiores desafios. Ajudo as pessoas a construir as suas próprias soluções, apresentando ideias e evidência de vários casos de estudo.
Estou também a trabalhar com a Social Impact Analyst Association na preparação de um questionário internacional sobre medição de impacto social. A Austrália está a liderar o projeto. Este questionário debruça-se sobre a associação nos diferentes países e será feito na Austrália, Canadá, Inglaterra, Itália, Portugal, Espanha, Hungria, e entre outros países membros da associação. Os inquiridos são as entidades-membro da Associação, recaíndo também sobre a sua respetiva rede de contactos. Em Portugal, este trabalho está a ser feito em conjunto com a Stone Soup.

LIS: Tiveste também na equipa que criou a SIB Knowledge Box, uma plataforma online sobre Títulos de Impacto Social e as potenciais áreas de intervenção ou aplicabilidade dos Títulos. Podes falar-nos mais desta ferramenta?

ET: O objetivo deste projeto é colmatar a falta de informação objetiva sobre os Títulos de Impacto Social existentes no mundo. Por exemplo, se alguém quer saber sobre mais sobre algum tema em específico, pode consultar esta Knowledge Box e ler um pequeno artigo sobre o tema – funciona como uma enciclopédia que resume os casos de estudo existentes. A Knowledge Box foi divulgada em Maio de 2013 e por isso reúne casos de estudo de todos os Títulos de Impacto Social lançados até à data. Pretende-se que sirva diferentes tipos de atores do setor de investimento social no mundo inteiro.

LIS: Existe mais algum projeto importante que gostasses de apresentar?

ET: Sim, tenho trabalhado no desenvolvimento do Social Impact Measurement Chest – um “cesto” de informação sobre métodos de medição de impacto, fácil de aceder e de entender. Oferece, por exemplo, diferentes escalas usadas, para temas diferentes, por exemplo: depressão, confiança ou bem-estar. O objetivo é ajudar as pessoas que querem medir o impacto pela primeira vez, a navegarem sobre os temas e métricas já utilizadas e que aqui são apresentadas de forma simples. Este projeto representa uma preocupação em educar os stakeholders do setor a lidarem com informação quantitativa que lhes é útil.

LIS: No envolvimento que temos tido com o setor publico, temo-nos deparado com motivações diferentes para a entrada no mercado do investimento social. Para além da importância da clarificação da linguagem e da provisão da informação simples, que outros elementos são fundamentais na catalisação deste setor?

ET: Os governos seguem estruturas muito hierárquicas e devemos procurar entender quem faz parte da cadeia de tomada de decisão. Nesta análise, devemos procurar entender o que as pessoas que estão no topo anunciam quando são eleitas, o que acreditam ser o seu dever e qual a sua estratégia. Se o projeto de investimento social está alinhado com isso, estas pessoas alinham; se não está, não alinham. É muito importante trabalhar junto deles de modo a garantir que entendem a visão do projeto.
Por outro lado, é muito importante trabalhar também com as pessoas na extremidade oposta da cadeia de tomada de decisão – as que estão bem no início, as que fazem o trabalho. Estas pessoas são normalmente as pessoas mais juniores no governo, mas também pessoa que têm uma forte influência na tomada das grandes decisões. Afinal, são os mais juniores que escrevem e que produzem a evidência, que levam esta decisão ao longo da cadeia, até ao lugar mais alto. É necessário que tenham um bom entendimento e que acreditem no projeto. Mesmo tentando ser objetivos e imparciais, a sua opinião transparecerá na sua escrita e nos relatórios que chegam aos cargos mais altos.

LIS: Devemos então procurar trabalhar com ‘champions’ que ocupem este lugar no setor público?

ET: Sim, são eles que levam a decisão a todos os escritórios, a todos os níveis da cadeia de decisão. Normalmente, para um projeto destes acontecer, a decisão deve passar por 6 ou 8 etapas/camadas de decisão. Estes champions são responsáveis por bater à porta de cada um dos escritórios, fazer com que a pessoa de lá assine o documento e levar fisicamente o papel ao escritório seguinte. Se a decisão não lhes parecer importante, pode ficar por baixo de uma pilha de tantas outras, durante meses.
Eu diria que é também preciso trabalhar com cada stakeholder, a cada um destes níveis. É importante perguntar-lhes o que tentam atingir, o que procuram mudar enquanto estão no governo, quais são as suas preocupações e de que informação precisam para decidir. Como intermediários, devemos garantir que estes interesses estão alinhados e refletidos no contrato final.

LIS: A nota de investigação deste mês é sobre a aptidão para receber investimento social, sobre a incapacidade que organizações sociais têm de atrair, receber e aplicar investimento social. Qual a relevância deste tema?

ET: Parece-me muitíssimo bem. A criação de um fundo de aptidão para o investimento, em Inglaterra – Investment and Contract Readiness Fund – foi uma das iniciativas mais bem recebidas pelo setor e também uma das mais uteis. A razão para isto é a evidente falta de preparação das organizações para receber investimento – isto é verdade tanto em Portugal como na Austrália.
Mas se passar agora para o lado das organizações, devo perguntar-vos “o que significa ser apto para receber investimento? O que procuram os financiadores?” Nunca vi nenhum trabalho fantástico sobre como uma organização social apta deve parecer. Se eu fosse uma organização e quisesse tornar-me apta para receber investimento, eu não saberia o que fazer. E por isso digo, se se nota esta inaptidão, devemos apresentar um mapa claro do que isso significa.

LIS: O Laboratório notou exatamente essa falha de informação. Na Nota apresentamos o ciclo de desenvolvimento das iniciativas de empreendedorismo social e para cada uma das fases deste ciclo apontamos qual deve ser o foco das organizações, quem são os investidores interessados e quais as suas expectativas e quais os instrumentos financeiros a utilizar.

ET: Estará traduzida em inglês? Pergunto-o não só para eu a ler, mas para toda a gente. Pode ser pequena – 4 páginas-, mas se realmente pretende dar resposta a esta falha de informação podiam procurar traduzi-la para todos a lerem. Primeiro em português, depois em inglês e quem sabe em outras línguas….
Espero que seja qualquer coisa que traduza as expectativas dos investidores e que inspire as organizações. Mesmo que estas não se identifiquem completamente com a vossa modelação do ciclo de desenvolvimento, ao lerem estarão a procurar rever-se em cada fase. Isso fá-las-á pensar no que são, e no que não são; porque são diferentes, ou no que é mais apropriado para si. Só por fazerem este exercício já estarão a caminhar na direção que os financiadores procuram. Parece-me muito importante, parabéns!

O Laboratório de Investimento Social agradece à Emma Tomkinson a sua disponibilidade para realizar esta entrevista e o seu interesse em colaborar connosco na criação e disseminação de conhecimento sobre Investimento Social, em Portugal.

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