Entrevista a Lisa Hehenberger

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No dia 27 de Agosto, o Laboratório de Investimento Social teve o prazer de entrevistar a sueca Lisa Hehenberger, Research and Policy Director da EVPA, membro do sub-grupo para a medição de impacto do Expert Group on Social Business (GECES) criado pela Comissão Europeia e membro do National Advisory Board de França da Taskforce do G8 para o Investimento Social. A Lisa falou-nos do que despertou o seu interesse pelo setor de investimento social, de alguns resultados do relatório recentemente publicado pelo sub-grupo e dos temas mais sensíveis relacionados com este. Leia entrevista completa aqui.

Laboratório de Investimento Social (LIS): Lisa, o que leva alguém que trabalha em Investment Banking a interessar-se por investimento social e filantropia de impacto?

Lisa Hehenberger (LH): Depois de trabalhar mais de 5 anos no setor financeiro, na UBS e na Clearwater International (antiga GB Investment Banking), queria fazer qualquer coisa completamente diferente. Inicialmente achei que seria relacionada com sustentabilidade e questões ambientais. Foi nesta altura que decidi fazer um Phd na IESE Business School e que o meu orientador de tese me introduziu o tema da Filantropia de Impacto.

«Encontrei as pessoas do setor financeiro a tentarem aplicar as suas competências para a resolução de problemas sociais – achei uma combinação muito forte!»

A partir daí assisti a muitas conferências da EVPA. Lembro que me fascinei, durante conferência em Paris em 2006, onde encontrei pessoas do setor financeiro a tentar aplicar as suas competências para a resolução de problemas sociais – achei uma combinação muito forte! Senti-me imediatamente em casa; pensei “é mesmo isto que eu quero fazer”.

LIS: Quer falar-nos mais sobre este ponto de encontro entre o setor social e o setor financeiro?

LH: O encontro surge porque os problemas sociais podem ser encarados através de modelos que já funcionaram e funcionam no setor financeiro. O que também percebi é que não se trata de aplicar diretamente estes modelos, mas sim de repensá-los e adaptá-los para que sejam mais ajustados ao setor social. Com uma mente aberta para a inovação, as pessoas do setor financeiro têm imenso a aprender com aquelas que têm muita experiência em tentar resolver problemas sociais. Quando estes dois tipos de pessoas se encontram, surgem modelos de resolução de problemas complexos, como os problemas sociais, muito inovadores.

LIS: Nesta altura, aproximava-se certamente mais do setor financeiro; o que a surpreendeu do lado do setor social?

LH: Existiam problemas neste espaço de encontro dos dois setores que foram para mim grandes revelações – a maneira como o setor social é tradicionalmente financiado: por projeto e com a obsessão de não financiar a estrutura das organizações, foi uma delas.

«O que responderia se lhe perguntassem se entraria num avião cuja companhia área não tenha gasto nada em manutenção nos últimos anos? No setor social acontece isto!»

Ontem ouvi uma metáfora boa para descrever esta situação: O que responderia se lhe perguntassem se entraria num avião cuja companhia área não tenha gasto nada em manutenção nos últimos anos? No setor social acontece isto! Porque é que havemos de pensar que as organizações do setor social não devem gastar nada com a sua gestão, governance ou estrutura interna? Como é que podem continuar a funcionar bem? Como é que podem atrair as melhores pessoas?
No fundo este é o objetivo da filantropia de impacto, trabalhar com as organizações, oferecendo apoio financeiro e não-financeiro, para que se tornem mais resilientes e aumentem o impacto que geram na sociedade.

LIS: A Lisa faz também parte do sub-grupo em medição de impacto do GECES. Como é que se dá o interesse da Comissão Europeia (CE) pelo tema?

LH: No âmbito da Social Business Initiative lançada pela CE para garantir que o tema dos negócios sociais recebia a atenção devida – a nível de financiamento e recursos não financeiros adequados, a CE junta num grupo – GECES, pessoas que trabalham no dia-a-dia com o setor social e peritos no tema para informar e aconselhar o desenho de políticas europeias.
O sub-grupo surge com a ideia de se ir preparando algum trabalho e aprofundando alguns temas específicos e importantes para o setor entre os encontros bianuais do GECES. Houve uma proposta para a criação de um sub-grupo para a medição do impacto porque existia uma necessidade urgente por parte de vários programas, como o EuSEF e o EaSI,2 para responder a este tipo de desafios.

LIS: O sub-grupo para impacto social lançou em Junho deste ano um relatório que apresenta seu trabalho no primeiro ano. Quer falar nos dele?

LH: Neste tema, o que faltava era um guia prático que explicasse como definir e como implementar sistemas de medição de impacto. Foi o que fizemos. Não nos limitamos a apontar as melhores ferramentas ou métodos. Com base nas melhores práticas de vários livros e metodologias, indicamos os 5 componentes mais importantes no processo de medição de impacto e que são comuns a várias ferramentas e metodologias (ver Figura 1). Baseamo-nos muito no trabalho desenvolvido pela EVPA.

LIS: Como apresentaria aos leitores a relevância do tema de medição de impacto para investidores e organizações sociais?

LH: Do lado dos investidores, a medição de impacto ajuda a identificar as organizações sociais em que se deve investir para que o retorno social do investimento seja maior. Ajuda também a identificar em que pontos as organizações estão a falhar e permite perceber como ajudá-las a colmatar essas falhas para que se tornem mais resilientes e que gerem mais impacto – pode ser através de financiamento ou de apoio de gestão.
Do lado das organizações sociais, a medição de impacto serve para atrair e angariar investimento. Existindo uma boa prática de medição de impacto é possível mostrar que se tem impacto, comunica-lo e ser-se mais atrativo para investimento. A medição de impacto torna as organizações mais transparentes naquilo que fazem para uma audiência externa. Pode também ser vista como uma ferramenta de aprendizagem dentro da organização, para identificar o que funciona e o que não funciona, tendo como critério o impacto produzido.

LIS: Quais os maiores desafios na definição de uma metodologia de medição de impacto?

LH: A medição de impacto é algo muito vasto. Normalmente, referimo-nos à medição de resultados (outcomes).3 O impacto vai muitas vezes além da esfera de intervenção de cada organização.4 A alternativa para medir impacto é a utilização de Randomized Controlled Trials,5 em que se pode atribuir diretamente o impacto à intervenção. Penso que ao tentar implementar sistemas de medição como este, nos perdemos facilmente a fazer da medição de impacto algo muito apurado e científico que acaba por não ser útil, que custa demasiado tempo e dinheiro e que requer competências que normalmente não existem nas organizações.
Nós recomendamos no nosso relatório é que se definam resultados e que se os meçam. Só a realização deste exercício exige um pensamento estruturado e a contemplação de vários outros resultados adjacentes a uma determinada intervenção.

LIS: Que desafios existem relacionados com o alinhamento entre investidores e organizações sociais durante a prática de medição de impacto?

LH: Aquilo que o sub-grupo concluiu é que a medição do impacto deve ser um processo bottom-up – mesmo que se ajude as organizações do setor social nesta tarefa, o que vai ser medido deve partir delas e da sua própria teoria da mudança, nunca dos investidores. Ou então, o que acontece é que cada organização social reporta o seu impacto de maneira diferente para os seus vários investidores.

«A medição do impacto deve ser um processo bottom-up – mesmo que se ajude as organizações do setor social nesta tarefa, o que vai ser medido deve partir delas e da sua própria teoria da mudança, nunca dos investidores.»

Este ponto não foi claro para todos no sub-grupo, desde o início. Nos nossos encontros, alguns participantes – principalmente do lado dos policy makers, sugeriam que definíssemos um leque de indicadores a serem usados pelas organizações sociais. Assim, as organizações reportavam com base em poucos indicadores, que por sua vez, já eram conhecidos por todos. A contra-argumentação baseou-se no facto de não existem 3 indicadores que sejam adequados ao trabalho de todas as organizações sociais e em explicar que o que realmente importa é que se reporte com base nos indicadores relevantes para a intervenção de cada organização. Por tudo isto, estas devem passar pelo processo em que definem quais são os seus objetivos, quais são os stakeholders envolvidos na sua intervenção; devem definir a sua teoria da mudança e depois, a forma de medir os seus resultados e potencial impacto social. Se as organizações sociais não passam por este processo, então são os investidores a decidir quais os indicadores a serem reportados e a medição de impacto torna-se numa burocracia para o setor.

LIS: Significa que a medição de impacto é um processo que fica só do lado das organizações ou também há esforços a fazer do lado dos investidores sociais?

LH: Há esforços a fazer do lado dos investidores sociais. Os investidores devem também definir à partida qual a sua missão social e quais os objetivos que visam obter. Digo isto porque quando comecei a olhar para a filantropia de impacto havia uns quantos fundos de investimento social que não tinham objetivos específicos e estavam mais interessados em aplicar esta abordagem de investimento sem saberem exatamente o que é que queriam dela. Algumas das organizações de filantropia de impacto que estão no mercado há mais tempo, como por exemplo, NESsT, Noaber Foundation, LGT venture philanthropy, já pensaram muito sobre isto e ajustaram a sua estratégia de investimento; agora pensam em setores específicos da economia social em que querem ter impacto. Eu não acho que seja necessário fazer isto, mas é mais fácil para alcançar impacto se se definir um par de áreas em que se pretende gerar impacto social e depois monitorizar e identificar possíveis investimentos que permitirão atingir estes objetivos.
Uma questão interessante relacionada com alinhamento de investidores e organizações sociais em torno de medição de impacto é que os investidores estão interessados em muitos mais indicadores para além dos relevantes para a organização; estão interessados, por exemplo, em indicadores que meçam o impacto da intervenção no setor todo e no longo-prazo, ou em indicadores relacionados com o apoio prestado à organização para que seja mais forte, resiliente e sustentável financeiramente. No fundo, existirem dois níveis de medição de impacto – o do investidor e o nível da organização social. Se o investidor social tem requisitos de medição de impacto que não fazem parte da teoria da mudança da organização, então a recolha desta informação e medição deve estar a seu cabo.

LIS: Lisa, quer deixar uma última lição aos leitores?

LH: Tal como no guia da EVPA ou no relatório do sub-grupo do GECES, a medição de impacto não deve ser qualquer coisa add-on, mas sim parte da estratégia de intervenção ou de investimento. Para que isto aconteça, do lado dos investidores, é preciso ter objetivos de retorno de investimento social claros e, do lado das organizações, ter resultados a alcançar definidos.
A medição de impacto deve ser vista como parte do processo de investimento – sendo algo intrínseco desde a identificação de oportunidades, à estrutura de investimento, à gestão de portfólio de investimento, etc.

LIS: Muito, muito obrigada, Lisa. Foi uma conversa muito inspiradora.

O Laboratório de Investimento Social agradece à Lisa Hehenberger a sua disponibilidade para realizar esta entrevista e o seu interesse em colaborar com o Laboratório de Investimento Social na criação e disseminação de conhecimento sobre Investimento Social, em Portugal.

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