Entrevista a Mike Mompi

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No dia 23 de Julho, a equipa do Laboratório esteve à conversa com Mike Mompi, early stage Investment Director na ClearlySo. O Mike tem ajudado a catalisar o investimento em negócios extraordinários que estejam em fase de arranque, através do Big Venture Challenge e da rede de investidores privados da organização – Clearly Social Angels. Antes de se juntar à ClearlySo, foi Head of Innovation no MyBnk, onde teve a oportunidade de angariar interessantes parcerias estratégicas e conhecimento em tecnologia de ponta para desenvolver negócios comerciais com impacto social. Mais recentemente, co-fundou uma organização intermediária do setor social – MakeSense London, é orador convidado em matérias de inovação social na Saïd Business School e é organizador e apresentador do TEDxEastEnd.

Laboratório de Investimento Social (LIS): Mike, a ClearlySo é uma empresa líder no reino Unido em consultoria de corporate finance com foco em Investimento Social. Sabendo que a ClearlySo tem como objetivo atrair investimento para as iniciativas com elevado impacto social, podes descrever brevemente o vosso trabalho?

Mike Mompi (MM): Sim, claro. O nosso trabalho divide-se em 2 partes. Primeira e mais intensivamente, prestamos serviços de consultoria, e aqui incluo tudo – desde entender as iniciativas que apoiamos até ajudá-las a desenvolver o seu plano de negócio. A seguir, ajudamo-las a desenvolver estratégias para alcançar investidores. Nós entendemos o que os investidores procuram e entendemos como isso lhes deve ser traduzido e comunicado. Neste sentido, apoiamos processos legais, processos de due diligence, negociações, contratualizações e fechamos negócios. Eu diria que estes são os nossos principais serviços.

LIS: Quem são estes investidores que vocês abordam?

MM: Trabalhamos com três grupos de investidores diferentes. Trabalhamos com investidores que negoceiam montantes entre 1 e 2 milhões de libras – o grupo de early stage investment; trabalhamos com investidores mais institucionais que transacionam montantes entre os 5 e os 40 milhões de libras, e também trabalhamos com fundos de investimento que investem quantias acima dos 20 milhões de libras. Estamos agora a trabalhar com um fundo, por exemplo, que deverá investir 130 milhões.

LIS: Estes investimentos acontecem sob que forma de instrumento financeiro?

MM: Para organizações ou iniciativas numa fase de desenvolvimento inicial, tendencialmente utiliza-se equity e alguma dívida. Estamos a procurar recorrer mais a instrumentos de quasi-equity e de dívida convertível, nestas fases. Em fases de desenvolvimento mais avançadas, com os fundos de investimento de impacto por exemplo, nota-se uma tendência para a utilização de dívida.

LIS: Podes dar-nos alguns números sobre os vossos clientes?

MM: Falando sobre organizações sociais (ou clientes) com quem trabalhamos, existem aproximadamente 1000 organizações que nos contactam, por ano, à procura de financiamento. Contactam-nos através do nosso portal online, através de referências feitas por outras entidades do setor, ou às vezes também resultam das nossas idas ao mercado para conhecer as pessoas e os seus contextos – esta seria a parte de identificação e desenvolvimento de negócio da ClearlySo.
Das 1000 organizações que analisamos por ano, acabamos por trabalhar com 50. Eu diria que, destas 50, 35 ou 40 posicionam-se na fase inicial de ciclo de vida – early stage, e as restantes dividem-se entre organizações em outros estágios de desenvolvimento e fundos de investimento.

LIS: Em Portugal, em 2010 estavam registadas cerca de 55.000 organizações sociais, mas ainda não podemos contar com 40 organizações aptas para o investimento social, por ano. No Reino Unido, há 10 anos atrás o cenário era o mesmo? Se sim, como é que estimularam o lado da procura do mercado de investimento social?

MM: Parece-me que há uma diferença fundamental entre o cenário no Reino Unido há 10 anos e onde talvez Portugal esteja agora, ou estava há 5 anos. A diferença é que, entretanto, imensas ferramentas e capitais foram desenvolvidas e depositados neste mercado. Existe agora a possibilidade de avançar ou progredir mais rapidamente que o Reino Unido. Por exemplo, a criação do Big Society Capital (BSC) no Reino Unido tem provado o seu sucesso na construção do ecossistema.3 Temos também os Títulos de Impacto Social (Social Impact Bonds), que têm tido comprovado sucesso na criação de valor social.4 Assistimos também a cada vez mais capital a ser mobilizado para fundos de investimento social e para o setor. Há dez anos atrás não tínhamos nada disto.
Por isso, o que Portugal tem agora é a prova de que muitas iniciativas resultam. Existe muito por onde pode aprender – desde a criação de um banco de retalho para alimentar o mercado- como o BSC, as colaborações com a União Europeia em termos de diferentes formas de financiamento – podem ser fundos de co-investimento, ou incubadores sociais ou fundos de aceleração de impacto. Claro que todos estes devem ser contextualizados, mas existem vários elementos que de certeza vão ajudar a catalisação do mercado.

LIS: Pedíamos-te agora que nos desses um exemplo de um investment deal que tenhas gerido, com informação sobre o impacto social gerado e retorno financeiro alcançado.

MM: Posso falar-vos brevemente de um investimento social que ganhou há poucas semanas o Annual Impact Investment of the Year Award e que eu estive a gerir. É uma transação que se tem prolongado por 2 anos e no qual tenho estado a trabalhar. É muito bom aperceber-me de que os prémios mais main stream criaram agora uma categoria para investimento de impacto. É ótimo ver que os negócios que fazemos são reconhecidos.
A organização chama-se Third Space Learning e criou uma plataforma online que permite aos estudantes que estejam a ficar para trás ter acesso a uma oferta global de ferramentas de ensino, por uma fração do custo que algo semelhante teria. A organização foi inaugurada no fim do ano passado e estas ferramentas já estão disponíveis em 90 escolas por todo o Reino Unido – o que é um número incrível.
Já puderam verificar que os estudantes que participam no programa durante dois meses estão a progredir o mesmo que, sem o programa, seria esperado que progredissem num ano. Considero que a educação é um dos maiores indicadores de sucesso futuro dos jovens, pelo que o impacto de oferecer serviços para estudantes que vivam em contextos desfavorecidos e que estejam a ficar para trás é bastante significativo.
Em termos de negócio, a organização já angariou meio milhão de libras em investimentos de equity do nosso grupo de Social Business Angels e de alguns outros Business Angels. É muito cedo para dizer qual será o retorno financeiro deste investimento. Claro que existem estimativas do que poderá vir a ser, mas o retorno não existirá até acontecer um liquidity event, que pode ser um trade sale, um share buyback ou uma oferta pública inicial.

LIS: Permites-nos que te perguntemos sobre as taxas de sucesso dos vossos investimentos na ClearlySo?

MM: Claro que sim, desde que trabalho na ClearlySo, dos 30 a 35 investimentos que fizemos, nenhum falhou… até agora. Não posso falar estatisticamente, mas posso-vos dizer que, se há algo que tenho descoberto nos empreendedores sociais é que são muito mais alinhados com a sua missão e que são e serão sempre mais comprometidos do que alguém que esteja a negociar só para fazer dinheiro.

«Uma vantagem dos investimentos em organizações sociais é os promotores serem mais motivados pela sua missão e desistirem menos facilmente.»

LIS: Podes falar-nos mais sobre os investidores sociais? Quem são eles?

MM: Neste mercado, vêem-se investidores institucionais, como a JP Morgan, Axa, entre outras – estes tendem a ter já algum interesse em investimento de impacto e estão a começar a investir nisto. Alguns dos grandes bancos que fundaram o BSC, investindo 100 milhões de libras cada um, estão à procura de impacto e de retornos financeiros de longo-prazo. No Reino Unido, também temos os fundos de pensões que estão a começar a aproximar-se do ecossistema e procuram investimentos sustentáveis e de longo-prazo. Do lado dos fundos de investimento de impacto, existe todo um espectro de fundos – alguns tradicionais que são finance-first e outros que são impact-first. Os fundos novos focados no impacto, procuram reports de impacto por parte das organizações e estão constantemente à procura de formas mais inovadoras de integrar o retorno financeiro e o impacto social.
Do lado dos investidores individuais, eu posso descrever aqueles que temos no grupo de Business Angels: temos os empreendedores cashed out – pessoas que tiveram sucesso na venda e saída dos seus negócios; temos os city refugees – aqueles que trabalharam na city a sua vida toda e agora procuram um escape para fazerem o bem com o seu dinheiro; temos aqueles a quem chamamos de recovering philanthropists – que têm doado o seu dinheiro ou têm trabalhado numa Fundação que o faça e procuram formas mais produtivas de aplicar o capital; e temos os family offices – que são as pessoas que têm grandes fortunas familiares.

LIS: O que têm todos estes investidores sociais em comum? Ou seja, transversalmente, o que dirias que procuram?

MM: Cada indivíduo tem as suas próprias idiossincrasias e procura coisas diferentes. De uma forma geral, posso dizer que procuram, pelo menos a preservação do seu capital e algum nível de retorno. Quase todos têm outros investimentos para além destes, e de alguma maneira procuram impacto social, mas os níveis exatos de impacto dependem de cada um. O que nos tem parecido ser mais atrativo para o nosso grupo de Business Angels e que tem tido bastante adesão, são todos os investimentos em que não existe um trade-off entre impacto e retorno e em que se verifica que, de facto, os dois crescem par-a-par. Mas eu reconheço que os nossos Business Angels são tendencialmente investidores main stream que se têm aproximado deste setor.

LIS: LIS: Conhecendo tão bem os investidores sociais, como podemos fazer do impacto uma variável relevante para os investidores, nomeadamente os Business Angels?

MM: Existe aqui uma grande diferença entre os 2 países – o número de Business Angels no Reino Unido são 43 000, em Portugal são cerca de 600. No Reino Unido, só no ano passado, existiram 500 transações, em Portugal 70. Mas é um setor desafiante e que, nos dois casos, representa uma grande oportunidade. Há sempre pessoas a fazerem investimentos. Eu sei que na recente conferência europeia de Business Angels grande parte das conversas foram à volta de impacto. Do grupo de indicadores que os Business Angels reportam, os 3 primeiros são: o número de Business Angels, o número de investimentos no negócio e o número de empregos criados. Portanto, eu diria que apesar da importância do impacto ser subtil, isto mostra que os investidores estão já ativamente a pensar em algo para além do retorno financeiro.

LIS: Que dicas nos podes dar para que a abordagem do Laboratório aos investidores seja mais eficaz, designadamente aos Business Angels?

MM: Para atrair pessoas para o setor de investimento social em Portugal, uma coisa da qual vocês precisam é exemplos, e outra é entenderem profundamente quem são os Business Angels que estão atualmente a fazer investimentos e perante isso prepararem uma discussão à volta do impacto.
Não podemos, ou não devemos, achar que vai ser fácil pedir aos Business Angels em Portugal que automaticamente invistam, sob a forma de dívida sem garantias ou subordinada, e que só lhes dará um retorno de 2% – isto representaria um grande trade-off para eles e é certamente muito diferente daquilo a que estão acostumados. Podem existir filantropos que estejam dispostos a considerar mais proativamente alocar o seu capital – como por exemplo a Fundação Calouste Gulbenkian, que é uma referência de filantropia a nível internacional. Há entidades como esta que vocês podem atrair e que, por sua, vez atrairão outros. Por isso, se estão a tentar envolver pessoas com perfil mais main stream, eu diria que exemplos e pequenos passos são o que vocês precisam.

LIS: O CEO da ClearlySo, Rodney Schwartz, intitulou recentemente os tempos de hoje como a “Era do investimento 3D”, para finalizar a entrevista gostávamos de te perguntar porque é que este é o momento para investir segundo esta ótica?

MM: Se olharmos para o panorama macroeconómico, temos um crescimento da população global, o envelhecimento da população, temos um reconhecimento crescente de um sistema educativo deficitário … Temos muitos problemas que cada vez são mais identificados de maneira clara. E eu acho que este é o princípio de tudo. Por outro lado, temos soluções. Há menos barreiras à entrada de novas soluções, inovações e tecnologia, menos custos para o arranque de projetos e um crescente número de pessoas a querem resolver os problemas que existem. Podemos olhar para o panorama, ou conjuntura ou ecossistema, desta maneira.
Ao mesmo tempo, temos o comportamento do consumidor. Se olharmos para o fair trade – as pessoas estão dispostas a pagar até 70% mais por um produto por razões éticas, mesmo que não exista nenhuma diferença no produto em si. Por isso, temos um comportamento do consumidor a mudar, a conjuntura macroeconómica de problemas e as soluções para os mesmos a evoluir constantemente. Se olharmos para a natureza dos problemas de uma perspetiva de sustentabilidade e longo prazo, existe uma grande oportunidade para nos focarmos na resolução de problemas através do investimento social.
Só nos anos 70 é que as pessoas começaram a considerar as duas variáveis do investimento – risco e retorno, e consequentemente, risk adjusted return. Este é o Capital Asset Pricing Model (CAPM), que tem o tão falado beta. Podemos olhar para uma terceira dimensão do modelo que será o impacto.

«(…) que cada decisão de investimento olhe não só para o risk adjusted return, mas também para o impact adjusted return – quando isto acontecer, estaremos certamente num lugar melhor.»

É minha, ou nossa, convicção que as conversas deviam evoluir para uma lógica de investimento tridimensional, em que o investimento social não se baseia numa nova classe de ativos, que compõe 2% dos portfolios dos investidores, mas que em cada decisão de investimento o impacto deve ser considerado. Isto não significa necessariamente, que o impacto seja 100% maximizado a custo de qualquer retorno financeiro, mas que cada decisão de investimento olhe não só para o risk adjusted return, mas também para o impact adjusted return – quando isto acontecer, estaremos certamente num lugar melhor.

LIS: Muito, muito obrigado, Mike. Foi uma conversa muito inspiradora.

O Laboratório de Investimento Social agradece ao Mike Mompi a sua disponibilidade para realizar esta entrevista e o seu interesse em colaborar connosco na criação e disseminação de conhecimento sobre Investimento Social, em Portugal.

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