Entrevista a Romain Joly

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Este mês, o Laboratório de Investimento Social teve o prazer de se encontrar com Romain Joly, analista do Réseau Entreprendre e ex-gestor do Danone Ecosystem Fund. Ficámos a conhecer estas duas organizações, a saber como o Romain equipara os empreendedores sociais aos promotores de start-ups e aquilo que, na sua opinião, são as maiores necessidades dos empreendedores sociais. Lei a entrevista completa aqui.

Laboratório de Investimento Social (LIS): Romain, trabalhaste para o Danone Ecossystem Fund durante três anos e meio, primeiro como Regional Manager of social innovation projects for Eastern Europe e depois como Manager of sourcing & suppliers development. Podes apresentar-nos este fundo e a sua missão?

Romain Joly (RJ): O Danone Ecosystem Fund, criado em 2009 com 100 milhões de euros em dividendos da Danone não distribuídos, tem como objetivo reforçar e apoiar as atividades de todos os stakeholders que participam na cadeia de valor da Danone, visando a construção de uma cadeia de valor mais inclusiva, resiliente e sustentável no longo prazo. O fundo pretende apoiar os seus stakeholders por todo o mundo.

LIS: Como é que o fundo apoia os stakeholders?

RJ: O Danone Ecosystem Fund identifica as necessidades dos stakeholders e procura encontrar respostas – através de ONG locais ou desenvolvendo mecanismos inovadores. O fundo financia projetos através de uma ótica de filantropia diferente – dá dinheiro a ONG locais que, com o apoio das Danone Country Business Units (unidades de negócio da Danone no respetivo país), trabalham junto dos stakeholders para melhorar o seu desempenho. Cada projeto financiado deve considerar três aspetos: 1) a criação de emprego, 2) o desenvolvimento de competências e promoção de empregabilidade no longo prazo e 3) a criação de microempresas.

LIS: Podes dar-nos um exemplo de um projeto em que tenhas estado envolvido?

RJ: Sim, participei na criação de 20 cooperativas na Ucrânia que agregam mais de 1000 agricultores. O fundo financiou a compra de equipamento e garantiu a formação necessária para que estes agricultores, nossos stakeholders, se encontrassem e crescessem juntos. Estas cooperativas ainda hoje funcionam e os seus produtores, juntos, contribuem para mais de 40% da produção de leite do país. Antes do apoio do fundo, 80% do leite produzido na Ucrânia vinha de agricultores singulares e pequenos, ou seja, pessoas que tinham duas vacas no seu quintal.

LIS: O Laboratório de Investimento Social está incubado no Instituto de Empreendedorismo Social, pelo que temos muito interesse em aprender com o Réseau Entreprendre, que se tornou a maior rede de empreendedores em França e conta já com quase 30 anos de experiência.

RJ: O Réseau é uma associação sem fins lucrativos em que empreendedores com muita experiência, os membros, se disponibilizam para apoiar promotores de start-up que tenham pouca experiência na criação de negócios. O foco do Reseáu Entreprendre não é o empreendedorismo social – apesar de também apoiarmos muitos – mas os empreendedores de um modo geral.
Somos uma rede descentralizada de associações locais – temos cerca de 50 associações espalhadas por França -, eu trabalho na associação de Paris. O trabalho que fazemos na associação de Paris é exatamente o mesmo que se faz nos outros pontos do país ou em outros países. Um dos pontos fortes que destaco no Réseau é “ser local”, acreditamos que a experiência do empreendedor é muito diferente se beneficiar do acompanhamento de um membro que está na porta ao lado.

LIS: Quem são os membros e quem são os empreendedores do Réseau?

RJ: Os membros são pessoas que já criaram uma pequena ou média empresa ou que são os CEO de uma Country Business Unit que siga princípios de empreendedorismo. Na associação de Paris, por exemplo, temos 200 membros. Os empreendedores são pessoas sem experiência em montar um negócio e que tenham uma start-up. Todos os anos são selecionados 30 a 40 start-up só em Paris, para iniciarem o nosso programa de acompanhamento; isto significa que todos os anos, em França, 800 novos empreendedores são apoiados.

LIS: Que programa de acompanhamento oferecem aos empreendedores?

RJ: Em primeiro lugar, é preciso dizer que os empreendedores que se candidatam ao programa passam por um processo de seleção rigoroso que visa identificar start-up promissoras. Depois de selecionadas, as start-up usufruem de um programa de três anos, a custo zero. O programa é composto por três elementos. O primeiro elemento é o apoio financeiro – concedemos empréstimos a 3 anos, entre 15.000 e 50.000 euros. As taxas de juro são 0%, não exigimos qualquer tipo de garantias e existe um período de carência de 18 meses. O empréstimo não deve ser a única fonte de financiamento do negócio, deve antes servir para alavancar mais financiamento de fontes diferentes. O segundo elemento é o programa de mentoria, em que um membro da associação local é alocado ao empreendedor, com o objetivo de o aconselhar e desafiar. O papel do membro é único porque o membro representa uma pessoa que não tem qualquer relação pessoal com o empreendedor e porque não ganha nada com o sucesso da start-up – não pode investir na start- up que apoia e por isso é um apoio completamente desinteressado. Por fim, oferecemos um programa de mentoria coletiva, em que o empreendedor é integrado num grupo de 10 empreendedores locais, de áreas de atividade diferentes. O grupo encontra-se mensalmente para discutir temas específicos de desenvolvimento de negócio e acaba por acontecer um apoio peer-to-peer.

LIS: Romain, como disseste, os empreendedores têm a oportunidade de integrar um programa muito completo a custo zero. Podes então explicar como é que o Réseau se financia?

RJ: A nossa rede é completamente desinteressada financeiramente no sucesso dos empreendedores, ou seja, não ganhamos dinheiro com o seu sucesso. Temos duas fontes de financiamento diferentes, com origens e propósitos distintos. A primeira fonte é um fundo financiado pelo setor público – central, regional ou local, que se destina exclusivamente aos empréstimos. Como a taxa de reembolso é muito alta, não temos a necessidade de pedir mais financiamento a cada ano – 90% das start-up ainda estão vivas passados 5 anos e cumpriram os prazos de reembolso do empréstimo. Os gastos com estrutura do Réseau – o meu salário, por exemplo, são cobertos pelas fees anuais pagas pelos membros (mentores) – é um modelo igual ao da Ashoka.

LIS: O que leva os membros a terem interesse em pagar uma fee anual?

RJ: É uma boa questão. Uma vez que não podem investir nas start-up e não têm nenhum interesse associado ao sucesso da mesma, não é tão claro. Eu diria que a primeira razão passa por mostrar que estão comprometidos com a comunidade local. A segunda razão é sentirem-se orgulhosos por utilizar os seus conhecimentos e poderem ajudar aqueles que não os têm. A última razão prende-se com o facto de fazerem parte de uma rede com muita reputação, que agrega muitos CEO e pessoas valorizadas no setor privado, podendo estabelecer contacto uns com os outros e mantendo um olho no mercado emergente. Mas sim, não é um interesse óbvio e parte do meu trabalho é selecionar membros que estejam alinhados com a missão do Réseau e que tenham como motivação principal ajudar os outros.

LIS: O Réseau Entreprendre não se dedica especialmente a apoiar empreendedores sociais, mas acaba por fazê-lo. O programa de acompanhamento que têm para os empreendedores sociais é o mesmo que para os empreendedores que não prossigam uma missão social? Porquê?

RJ: O programa de acompanhamento que oferecemos é exatamente igual para qualquer um dos dois perfis de empreendedores, o que muda é são os critérios de seleção. No caso do empreendedor social, por exemplo, estamos disponíveis a apoiar o lançamento de uma iniciativa – isto não acontece com os outros. O programa de acompanhamento é igual e eu acredito que assim deva ser. Um empreendedor social é acima de tudo um empreendedor. É simples e eu acredito que é verdade. Estes dois perfis são semelhantes no seu ADN: são pessoas que acreditam na sua ideia, corajosas, persistentes; a única diferença é que um deles se dedica a um problema social. Existem imensas iniciativas de empreendedorismo social muito boas, há também muitas incubadoras e networks para empreendedores sociais. Em França, algumas tornaram-se muito famosas e gerou-se muito buzz em torno do empreendedorismo social. Neste momento, a meu ver, o grande desafio é ajudar estas iniciativas a crescer. Acredito que o segredo está em olhar para elas como se de empreendedorismo se tratasse e ajudar os seus promotores a crescer como empreendedores.

LIS: O Réseau pode ser visto como um intermediário do setor de investimento social, oferecendo programas de acompanhamento completos que contribuem para melhor a aptidão e o acesso do setor social ao financiamento. Indo ao encontro da temática da nota de investigação deste mês, na tua opinião, que outros elementos deve ter um ecossistema promotor de empreendedorismo social?

RJ: Parece-me que o problema dos empreendedores não sociais e sociais é o mesmo, por isso a resposta serve para os dois ecossistemas. Existe uma falha no financiamento de iniciativas de tamanho intermédio – entre as start-up e as empresas de grande escala. Não imaginam a quantidade e diversidade de apoios à criação de negócios que existem em França – desde incentivos fiscais, subvenções ou empréstimos. O que não existe é apoio a iniciativas que ultrapassam esta fase de desenvolvimento; não existe ajuda para a fase de crescimento, para escalar e expandir o negócio. Por isso, parece-me que o que falta é a mobilização da banca e de business angels para apoiarem financeiramente os negócios desta dimensão.

LIS: A situação que descreves passa-se em França, em Portugal e por todo o mundo. Tal como desenvolvemos em notas de investigação anteriores, existe uma falha no financiamento do setor social ao longo do ciclo de desenvolvimento das iniciativas de inovação e empreendedorismo social. O que se deve proporcionar para colmatar esta falha?

RJ: O Réseau criou um programa de acompanhamento, croissance programme, para as iniciativas que estão exatamente nesta fase de crescimento e que tenham beneficiado do nosso programa de acompanhamento que apresentei. Em parceira com um banco público, concedemos empréstimos entre os 100 e os 300 mil euros, e oferecemos uma mentoria diferente. Criamos um quadro consultivo para cada iniciativa com 2 ou 3 membros e que, por poucos anos, ajuda traçar e implementar a estratégia de crescimento – a definir o modelo de governance, por exemplo.
Por outro lado, penso que o Estado tem um papel fundamental a desempenhar. Deve criar as condições necessárias a que o mercado se desenvolva. Enumero alguns pontos para a sua intervenção: 1) Tornar a informação sobre programas de apoio mais transparente, clara e mais visível; 2) Promover um sistema fiscal atrativo para os investidores; 3) Permitir que as start-up emitam ações; e 4) Garantir a estabilidade da regulação, evitando alterações diárias significativas à legislação em vigor.

LIS: Para terminar, Romain, sabemos que tens um plano de volta ao mundo para apoiar empreendedores sociais. Queres partilhar connosco este projecto?

RJ: Eu e a minha namorada, que trabalha em estratégia de lobbying e de comunicação, tínhamos a ideia de fazer uma volta ao mundo no próximo ano. Rapidamente percebemos que ir sem nenhum propósito não nos fazia sentido, então decidimos mudar o esquema da viagem: Vamos passar 2 ou 3 meses em 4 ou 5 sítios onde apoiarmos um empreendedor social local e o ajudarmos a crescer a sua iniciativa. Desenhar uma boa estratégia de comunicação ou definir uma estratégia para receber e aplicar os donativos são exemplos dos temas que trabalharemos com os empreendedores. Para cada um, trabalharemos um tema específico e produziremos um produto final concreto, por exemplo: financiar a estratégia de pricing e de comunicação desenvolvida. Queremos muito aplicar os nossos conhecimentos e competências e pô-las ao serviço dos outros. Estamos convencidos de que é necessário encontrar maneiras de tornar os meios rurais atrativos ou rapidamente ficarão completamente despovoados, por todo o mundo.

O Laboratório de Investimento Social agradece ao Romain Joly a sua disponibilidade para realizar esta entrevista e o seu interesse em colaborar connosco na criação e disseminação de conhecimento sobre Investimento Social, em Portugal.

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