Investimento social: a temática que junta Portugal aos países do G8

Laboratório de Investimento Social
Portugal é considerado um exemplo de inovação e boas práticas nesta área. Foi por isso convidado a sentar-se à mesa dos países que catalisarão um mercado global de investimento de impacto, através do Global Social Impact Investment Steering Group (GSG), um grupo de trabalho que sucede ao G8 Social Impact Investment Taskforce, e onde participarão para além dos países do G8, o Brasil, Índia, Israel e México.

Investimento social: a temática que junta Portugal aos países do G8

Sabia que foi um português quem criou o primeiro código universal que permite a pessoas daltónicas identificarem as cores e que está a revolucionar várias indústrias em todo o mundo? Já alguma vez provou fruta que por não cumprir os requisitos de “beleza” das grandes cadeias de supermercados era deitada fora, e que para além de ser tão ou mais saborosa que as “bonitas” é mais barata, protegendo os produtores e prevenindo o desperdício? O ColorAdd e a Fruta Feia são apenas alguns dos exemplos das muitas inovações sociais que são criadas todos os dias em Portugal e que desafiam o status quo na resolução de muitos dos problemas que nos rodeiam.

Em pleno Verão de 2015 um grupo de mais de 20 decisores e líderes de opinião portugueses começou a inverter esta situação, lançando cinco recomendações para permitir mobilizar financiamento para a inovação social em Portugal. O Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social, uma iniciativa financiada pela Comissão Europeia, mobilizada pela Fundação Calouste Gulbenkian e concretizada com o apoio do Laboratório de Investimento Social e Social Finance UK, permitiu colocar o tema do investimento social na agenda destes decisores de forma a criar momentum e catalisar um efeito multiplicador.

Toda a informação sobre este projeto está agora disponível neste link

A relevância do investimento social em Portugal

A equipa do Laboratório de Investimento Social acredita que as recomendações apresentadas pelo Grupo de Trabalho para o Investimento Social podem combater algo denominado por Malcolm Gladwell como o “efeito Matthew”. Para perceber melhor este conceito, talvez faça sentido fazermos o paralelismo com jogadores de hóquei no gelo no Canadá e EUA.

Gladwell reparou que a maior parte dos jogadores destas seleções nacionais tinham nascido nos primeiros meses do ano, entre Janeiro e Março. Ao investigar o porquê, descobriu que essa situação se devia ao facto de que quando tinham entre os 6 e 8 anos, os jovens nascidos no início do ano tinham uma estatura física maior que os colegas nascidos nos últimos meses do ano, o que lhes dava naturalmente maior destreza nos treinos. Assim, este primeiro grupo de jovens, erradamente considerados melhores jogadores, viriam a receber mais horas de treino, atenção e dedicação que os outros, vindo mais tarde a tornar-se, verdadeiramente, os melhores jogadores. A partir de um pressuposto errado – que jovens de maior estatura física são melhores jogadores – construímos uma premissa verdadeira por alocarmos mais recursos nesses jovens. Chegamos assim ao “efeito Matthew”.

Nesta história podemos comparar o grupo dos jovens nascidos no final do ano aos empreendedores sociais, e os outros empreendedores, nas áreas da tecnologia, biomedicina e áreas digitais, aos jovens mais velhos, isto porque os “empreendedores tradicionais” têm acesso a recursos financeiros e não financeiros em maior abundância que os empreendedores sociais. Partindo dum pressuposto errado – que os empreendedores tradicionais estão melhor posicionados para desenvolverem modelos de negócio – construímos uma premissa verdadeira – porque efetivamente têm maior acesso a fontes de financiamento. Desta forma, é natural que desenvolvam as suas ideias e modelos de negócio de forma mais robusta e que possam vir a transformar posteriormente as suas indústrias.

Uma breve definição de investimento social

O investimento social, e portanto o foco do Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social, surge assim como uma oportunidade de nivelar esta diferença “temporal”. Está focado simultaneamente no retorno financeiro e social no momento da decisão de investimento. Isto é, o retorno financeiro está diretamente relacionado com a capacidade de criar valor e gerar impacto. Permitir um maior acesso a financiamento às iniciativas de inovação e empreendedorismo social resultará em mais e melhores projetos, com modelos de negócio robustos e soluções sustentáveis. E tal significa melhores respostas sociais e maior impacto junto dos seus beneficiários.

Existe a perceção duma certa complexidade inerente à temática do investimento social. Na perspetiva do Laboratório de Investimento Social, esta complexidade é tida como uma coisa positiva uma vez que os problemas sociais mais prementes da nossa sociedade são também complexos. É necessário uma elevada dose de respeito, capacidade analítica e experiência no terreno para perceber as causas dos problemas e desenhar soluções sustentáveis.

O contributo do Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social

O Grupo de Trabalho Português pretende fomentar uma discussão informada sobre o mercado de investimento social em Portugal. Para cumprir este objetivo, tentou liderar pelo exemplo ao promover conteúdos relevantes – através das cinco recomendações -, ao implementar uma metodologia inovadora no envolvimento das partes interessadas e ao adotar uma postura de total transparência com a publicação integral de todos os documentos de trabalho ao longo de 12 meses – incluindo atas de reunião. Toda a informação está disponível no site desta iniciativa.

O Grupo de Trabalho juntou 21 entidades dos setores sociais, público e privado, que foram divididas em equipas de trabalho, cada uma focada numa área específica:

  • Equipa 1: Conhecimento e inteligência de mercado
  • Equipa 2: Capacitação para o impacto e investimento social
  • Equipa 3: Instrumentos financeiros para o setor social e enquadramento legal

Apesar de trabalharem temas específicos, as atividades e resultados de cada equipa de trabalho foram sempre partilhados com os restantes em reuniões plenárias trimestrais, utilizando formatos interativos, incluindo a adoção de um sistema de votação em tempo real para informar os temas prioritários a abordar nas recomendações.

De forma a assegurar que as recomendações estavam alinhadas com as necessidades do sector, foram ainda organizados quatro workshops em Lisboa e no Porto nas temáticas de 1) desemprego jovem, 2) capacitação para o investimento social, 3) mecanismos financeiros e 4) inovação social no setor público, que contaram com a participação de um total de 70 entidades.

Com base neste percurso, o Grupo de Trabalho apresentou o relatório final com as cinco recomendações por ocasião do Social Innovation World Forum ’15, realizado na Fundação Calouste Gulbenkian:

Recomendação 1: Fortalecer as competências das entidades da economia social, através de programas de capacitação.

Recomendação 2: Introduzir instrumentos financeiros adequados às necessidades das entidades da Economia Social.

Recomendação 3: Promover uma cultura de orientação para os resultados no seio dos serviços sociais públicos.

Recomendação 4: Criar um centro de conhecimento e recursos para o investimento social.

Recomendação 5: Desenvolver um ecossistema de intermediários de investimento social.

Os próximos passos: assegurar que não se torna em “mais um relatório”

Talvez o momento mais importante deste trabalho seja agora. Portugal juntou-se a um grupo restrito de países que têm uma estratégia a 5 anos para desenvolver um ecossistema de investimento social. Essa estratégia consubstancia-se nas recomendações, cada uma das quais tem associado um plano com ações muito concretas. De forma não exaustiva, damos conta de iniciativas em processo de desenvolvimento que irão ajudar a responder a algumas das recomendações nos próximos 12 meses:

  • No âmbito da recomendação #1, a CASES irá continuar a promover o Programa de Impacto Social, com objetivo de o expandir a nível geográfico, mantendo a aposta na criação de competências para a avaliação de impacto no sector.
  • No âmbito da recomendação #2, a Estrutura de Missão Portugal Inovação Social lançou recentemente uma fase de Manifestação de Interesse (22 de Setembro a 13 de Outubro) para Títulos de Impacto Social (TIS). Já existe um exemplo de TIS em Portugal, com o projeto da Academia de Código Jr e o Grupo de Trabalho promove a replicação de projetos semelhantes nos próximos anos.
  • No âmbito da recomendação #4, está em processo de desenvolvimento a criação de uma secção sobre Inovação Social no site do Portugal Economy Probe, tanto em português como em inglês, que permitirá aglomerar num só local, todo o conhecimento e informação produzidos sobre a inovação social em Portugal. Este passo contribuirá também para aumentar a visibilidade internacional do que melhor é feito no nosso país.

O Grupo de Trabalho Português para o Investimento Social cumpriu a maioria dos seus objetivos: promoveu uma discussão informada sobre o tema do investimento social, criou conhecimento que é agora partilhado com todos os atores do ecossistema, colocou Portugal numa posição de vanguarda a nível internacional e, mais importante, desenhou uma estratégia de longo-prazo para a mobilização de financiamento para a inovação social em Portugal.

A nossa métrica de sucesso deverá ser sempre a redução dos problemas sociais que afetam os segmentos mais vulneráveis da nossa sociedade. Acreditamos que isso apenas acontecerá quando os empreendedores e entidades da economia social tiverem acesso a mecanismos de financiamento com incentivos alinhados para a inovação, eficiência e sustentabilidade. Nesse dia, o Grupo de Trabalho verá serem cumpridas as suas recomendações.

 

Rita Casimiro e António Miguel

Laboratório de Investimento Social

Outubro 2015

Este artigo foi publicado pela Impulso Positivo na edição nº 29 Setembro/Outubro 2015. A versão original pode ser encontrada aqui.

Não há comentários

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *